

Experimentamos, durante cinco (05) dias, a verdadeira convivência com a diversidade nacional sob o ponto de vista de todos os povos, territórios, comunidades, religiões, opções sexuais. Enfim, o povo brasileiro esteve ali representado por todos os seus segmentos estabelecendo uma interlocução direta entre a sociedade e o governo brasileiro, de maneira franca, encaminhando as mais variadas demandas na busca de respostas com soluções factíveis, regado a debates calorosíssimos, com dissensos e consensos, mas sempre prevalecendo, nas conclusões, o respeito à democracia e ao Estado de Direito que nortearam todo esse extraordinário e profícuo encontro.
Nos emocionamos, cantamos, aplaudimos, cerramos punhos, emitimos palavras de ordem, ora de forma conjunta, ora de maneira segmentada, nas vozes dos povos: quilombolas, indígenas, ciganos, LGBTQIAPN+, migrantes, apátridas, idosos, dentre outros.
Como dito, foi um momento de escuta e de afirmação de todas as vozes, numa rara e esclarecedora demonstração de que estávamos em uma conferência plural de combate ao racismo, ao preconceito, à discriminação racial e a todas as formas de intolerância correlatas, nos lembrando, dentre outros conclaves, a Conferência Internacional de Durban, na África do Sul.
Mas, para além da efetiva participação neste contexto, levamos uma lente pessoal de um apurado observatório, e nele foi possível capturar imagens nunca dantes vistas na dimensão percebida, cuja compreensão nos revelou ricos diagnósticos que, ora, peço licença para compartilhar com os companheiros de caminhada e com a sociedade.
O primeiro deles é que, em número acredito nunca antes registrado, a nossa diversidade, majoritariamente negra (pretos e pardos), em movimento, circulou em todos os aeroportos do país, embarcando em aviões de todas as companhias nacionais, trafegando com conferencistas usando seus trajes coloridos, ostentando seus turbantes, cocares, lenços, leques, enfim, empunhando seus adereços identitários, inerentes a cada grupo de forma específica, mas unidos para denunciarem as diferentes formas de experienciarem o racismo, inclusive naqueles espaços de locomoção.
A antiga observadora, através da sua poderosa lente, pôde constatar que, fosse na recepção dos hotéis, e circulei em pelo menos três deles, fosse nos restaurantes para o café da manhã e no jantar, percebia-se, com honrosas exceções, reações gestuais demonstrando expressões de perplexidade; fosse de hóspedes ou, pasmem, de alguns funcionários. Via-se uma manifesta demonstração de insatisfação pouco comum e, em alguns momentos, olhares de cansaço e reprovação cuja leitura já sabemos bem o significado desse cenário aparentemente subliminar. Tais como: “Por que estão logo aqui?”, “Eles são muitos” e deixavam escapar: “Essa é uma movimentação nunca vista”. Registre-se que alguns poucos também aplaudiam, mas uma coisa era patente: sabiam eles que não poderiam reagir.E a lente da observadora dizia para si própria, capturando cada flagrante: “Não podem dizer nada mesmo, não”.
Assim, fossem nos elevadores e demais espaços de circulação comum, eles, casais, famílias, amigos(as), caminhavam acelerados, com sorrisos plásticos, andando rapidamente sempre pelas laterais, buscando uma mesa afastada e, mesmo demonstrando que eram visitantes, tratavam de finalizar a permanência nos espaços em que estávamos, em massa, sempre de forma muito breve.
A nossa lente observadora, já habituada a fazer essa leitura, identificava a real motivação desse típico comportamento, moldado pela força do racismo tão presente e acintoso em nossa sociedade.
Por outro lado, e em nossa observação, o mais importante foi que, com muita alegria, constatamos da outra ponta que a lógica ali tinha mudado: não estávamos arrumando, limpando, cozinhando e servindo, como sói acontecer. Nós estávamos sendo servidos! Éramos hóspedes, na posição de consumidores, enquanto intelectuais, ativistas, trabalhadores, etc., acessando todos os aparelhos eletrônicos, virtuais, bens e serviços que as instituições públicas e privadas colocaram à nossa disposição nestes dias.
O pertencimento racial de comando era o nosso. O peso psíquico da raça que nos acompanha sempre, por cinco (05) dias, a despeito desses episódios, podemos afirmar que não experimentamos o desconforto racial, porque estávamos juntos e fortalecidos, com a chancela e em diálogo direto com o Estado brasileiro, por intermédio dos seus representantes, governo e ministérios, como deve e tem que ser, porque somos também os construtores desse país.Essa é a consciência que devemos ter.
O que vivemos nesses dias foi a breve experiência de poder acessar o mínimo existencial, materialmente falando, cuja norma constitucional nos assegura, fazendo valer nossos direitos e privilégios legais, políticos, econômicos, sociais e ambientais, tão vilipendiados em alguns governos.
Poder estar e ser em todos os espaços, racialmente falando, sem peso, sem permitir que o preconceito e/ou a discriminação racial sobrepujassem a nossa dignidade, foi fortalecedor e estimulante.
Foi tudo muito rápido, porém muito proveitoso e, no campo simbólico, uma chama que deve permanecer acesa e, in concreto, uma meta a ser perseguida e consolidada a médio e curto prazo. Essa V CONAPIR (Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial) significa, para nós, um grande farol.
Aproveitemos o momento. O tempo urge!
Sílvia Cerqueira – Advogada e Ex-Conselheira Notório Saber do CNPIR do Ministério de Direitos Humanos